Filiado a

Thiago Ávila é um militante internacionalista, parceiro do Sindjus, preso injustamente pelo Estado de Israel.

Conheci o Thiago pessoalmente em janeiro de 2020, em Porto Alegre, na antiga sede da livraria Cirkula, em um evento que tinha como objetivo a construção da sociedade do “Bem Viver”, o enfrentamento à destruição ambiental e a luta internacionalista pela liberdade e autodeterminação de todos os povos. 

Eu era um jovem sindicalista que havia conquistado uma posição na direção do Sindjus há apenas 6 meses, e dentro desse curto espaço de tempo, ajudado a construir uma greve histórica da nossa categoria, apesar das minhas diversas inseguranças. Desde aquele tempo, o Thiago já me inspirava muito, tanto pela sua militância imparável junto a comunidades indígenas e agroecológicas em todo o país, quanto por meio do seu canal de formação política no YouTube. 

Ele era diferente daquelas lideranças às quais eu estava acostumado. Não gritava em microfones diante de multidões, falava baixo, sentado em rodas. Não tomava decisões unilaterais e nem dava ordens, construía consenso coletivo e compartilhava tarefas. Não olhava apenas para seu próprio território, pois seu (e nosso) território era todo o planeta. Não apontava qual era o futuro certo, comungava sonhos. Apesar disso, sabia muito bem endurecer quando necessário para proteger sua comunidade, transitando entre a fluidez da água e a solidez de uma rocha. Ao longo da vida, isso lhe custou diversas prisões e perseguições injustas e arbitrárias. Mas ainda assim, ele nunca deixou de lutar. 

Ao longo do tempo, construímos uma bela relação de amizade, o que me deu muita sustentação para qualificar minha atuação política sindical e também cidadã. Nos encontramos em diversas lutas. Uma delas, aqui em Porto Alegre, onde o Thiago nos deu a honra de ser um dos principais debatedores e coorganizador do VII Conseju RS (julho/23), o Congresso trienal do Sindjus, que tinha como tema “As lutas no campo, na floresta, na cidade e a preservação do meio ambiente no contexto do Bem Viver”. 

Alguns colegas perguntavam o porquê do Sindjus debater esses temas e não o nosso reajuste salarial. Oito meses depois, o Rio Grande do Sul foi devastado por chuvas intensas e enchentes sem precedentes, tornando evidente o estado de emergência climática em que nos encontramos. A pauta estava correta, só não tínhamos a dimensão de quão rápido seríamos afetados e de quão impotentes ficaríamos diante da catástrofe vivenciada. 

As lutas e o trabalho do Thiago sempre foram ao encontro das necessidades humanas mais básicas, para que todos e todas nós possamos viver com dignidade e não sob o jugo de um sistema ultra capitalista, que opera por meio da destruição da natureza, dos ideais imperialistas e, inclusive, da necropolítica, para garantir que 12 bilionários (e agora alguns trilionários também) possam acumular metade da riqueza do mundo. E essa deveria ser a luta de todas e todos nós!

Nos últimos anos, meu camarada assumiu a maior missão da sua vida. Irresignado com a perversidade do genocídio do povo palestino e de todas as atrocidades que a máquina nazisionista israelense tem cometido contra crianças, mulheres e todos e todas que buscam resistir, Thiago se levantou contra o extermínio. Usou todo o conhecimento organizativo e militante de uma vida inteira para somar forças à Flotilha da Liberdade, depois unificada com a Global Smud. 

No início foi um barco. Logo três. Hoje, dezenas, centenas, de diversos países, com milhares de pessoas arriscando suas vidas para abrir um corredor humanitário e levar alimentos, medicamentos e todo tipo de ajuda humanitária à Gaza, onde seres humanos são condenados à morte diariamente por meio, inclusive, da fome e da sede. Tive a imensa honra de colaborar durante um período com o Thiago nessa missão e participar da maior marcha da história do Brasil pela liberdade do povo palestino, em São Paulo.

Após inúmeras tentativas de furar o bloqueio, nosso companheiro foi sequestrado ilegalmente em águas internacionais, preso e torturado pelo exército israelense mais de uma vez. Nas últimas semanas, novamente esteve privado de sua liberdade em uma masmorra israelense na Palestina ocupada, privado do direito de acompanhar o sepultamento da própria mãe e com a sua família ameaçada de morte. Tudo porque ousou se levantar contra uma das maiores injustiças do nosso tempo, contra uma máquina de guerra, contra o sionismo.

Escrevo esse texto para afirmar a todas as pessoas que o leem, que o Thiago não é um herói, nunca quis ser. O Thiago é uma pessoa comum, que não só sonha, mas acredita que um novo mundo é possível. Dedica sua vida a lutar por essa crença para que um dia possamos tornar realidade a erradicação de todas as formas de opressão, criando um mundo livre, justo e solidário, baseado na cultura ancestral do Bem Viver. E esse deve ser o objetivo de todo sindicato, assim como é da Direção do Sindjus, e deve ser de toda a nossa categoria! Lutar pela paz e pela liberdade!

Por isso, convoco a todas e todos que se manifestem, gritem, escrevam, publiquem, repostem, façam o que tiver ao seu alcance para garantir a liberdade do Thiago, da Global Sumud Flotilha, bem como de toda a Palestina ocupada. Hoje são eles, os libaneses, venezuelanos, congoleses, sudaneses, e tantos outros ainda que sangram pela foice do imperialismo, mas nós, podemos ser os próximos. 

* Texto de Emanuel Dall’Bello dos Santos, diretor de Política e Formação Sindical do SindjusRS