Ser feminista é ser de luta, por Lívia Natália

Minha querida amiga,

(Não sei se posso mesmo te chamar assim, então, até o final desta carta, gostaria que me dissesse se seguiremos unidas ou não)

Quero iniciar te dizendo: eu sei que, seja você muito jovem ou, como eu e minha geração, um tanto mais velha; seja ainda mais jovem que a minha sobrinha Sophie com seus recém-completados quatro anos ou mais velha que minha mãe, a septuagenária Dona Vanda, esteja certa, eu sei que você e todas nós estamos exaustas cansadas de lutar sempre, de resistir a tudo.

Mas esta carta não é apenas sobre nós, e sim, principalmente, sobre meninas que ainda não nasceram e sobre meninos que ainda podem escapar da formação que naturaliza o machismo, portanto, estou aqui propondo que firmemos um compromisso ilimitado e coletivo que defenda a saúde física e emocional das próximas gerações, impedindo o achatamento da emocionalidade de homens e mulheres em formação e, por consequência, nos defendendo de feminicídios, estupros e outros abusos invisibilizados pelas relações trabalhistas e pelo convívio social.

O dia 8 de março, que popularizou-se como “dia da mulher”, precisa, na verdade, ser lembrado como sendo o “Dia nacional de luta pelos direitos das mulheres”. Se toda a sociedade pensasse assim, nós, certamente, teríamos mais chances de abraçar coletivamente essa luta. Se assim fosse, as flores e parabéns seriam substituídas por respeito e reflexão continuada na busca de atitudes que tornassem os ambientes menos hostis à mulheres.

A forma maciça como o machismo estrutural nos oprime, muitas vezes, constrangeu a minha busca por direitos e fez com que muitas de nós demonizássemos a militância feminista e tentamos nos manter o mais possível longe desse lugar. Mesmo em ambientes onde os homens se alinhavam com a defesa de questões relativas a outras minorias, sejam raciais, econômicas ou sexuais, a discussão de gênero raramente foi levada a sério como uma pauta relevante na defesa da vida.

Na família, desde sempre, muitas de nós vimos inviabilizada a nossa possibilidade de expressão, fomos limitadas na convivência com o mundo sempre cheio de horizontes dos nossos irmãos em contraste com o nosso, cheio de: “sente direito”, “feche as pernas” e “se comporte como uma menina”. Essas opressões, que se ampliam em outros lugares como a escola e os espaços religiosos, nos ensinam a pensar o fato de carregar um útero e ter uma vagina como a maior fraqueza, ou melhor, nós fomos ensinadas a não pensar, não discutir, a nos submeter.

Mas, que bom, muitas de nós conseguimos romper essa barreira, e seguimos com a esperança de que estudar e ter uma profissão nos defenderia das violências, afinal, estaríamos fora de casa, longe dos poderes opressores instituídos até então e, portanto, libertas para sermos nós mesmas. Ledo engano. Fora do machismo doméstico, encontramos o mais amplo e ainda mais perverso machismo corporativo, que não aceita uma mulher ampliada do espaço doméstico e que, portanto, investe no nosso silenciamento de maneiras múltiplas, em artimanhas de micropoderes sistemáticos que querem se mascarar de rotinas de trabalho.

Toda essa cena descrita atinge a nós, mulheres cis, e ficam ainda mais violentas se somos mulheres, como eu, negras, ou, como muitas das que conheço, não-brancas, sendo ainda lésbicas, transgênero ou travestis. Diante desses lugares de identidades divergentes, nós viramos, imediatamente, corpos que valem menos ou que não valem nada.

No entanto, quando dizemos que o machismo é estrutural, afinal, do que estamos falando? Amiga, estou falando disso tudo que contei para você até aqui. Eu mesma, escolhi não ser mãe desde muito cedo, sempre detestei a lida com as bonecas, achava chatíssimo ter que
ninar e alimentar bonecas que não faziam nada inertes. Desde que me conheço, nunca gostei de brincar de mãe…isso é tão forte em mim que as minhas maiores heranças de brinquedo foram quebra-cabeças e uma ou outra boneca, ora intacta, ora maltratada, vez que elas iam como passageiras nas brincadeiras de paraquedas nas dunas da Lagoa do Abaeté, quintal de casa.

Nada disso, no entanto, me impediu de reproduzir discursos machistas, de julgar outras mulheres pela roupa, comportamento, ambiente de vida ou de trabalho. E, pasme, isso não significa que eu seja machista, na verdade, nós tendemos a introjetar e aderir, muitas vezes, ao discurso e ao pensamento machista apenas porque ele é, socialmente, considerado um lugar de poder.

Me diz uma coisa? Você já ouviu falar que o feminismo matou uma pessoa? Bom…eu acho que não. Na verdade, é o machismo, introjetado nos discursos e atitudes que matam o tempo todo. Hoje mesmo ouvi, com o coração sentido, a história de um homem que está, para o espanto de todos, principalmente de sua esposa, prestes a morrer graças a um câncer de próstata que o acompanha em sintomas múltiplos há muitos anos. Ele nunca foi ao urologista e escondia as dores que sentia dizendo que eram da coluna quando, na verdade, eram lancinantes dores sintomáticas do câncer de próstata recém descoberto.

Isso é umas das coisas que eu quero dizer quando afirmo que o machismo mata… Ele mata homens e mulheres, e nós sentimos muito por isso, com nossas vidas, inclusive. O feminicídio e as violências físicas e psicológicas aumentaram durante a pandemia, muitas mulheres estão presas em suas casas com os seus abusadores e nós, quando não somos as mulheres atingidas por essa violência, somos as vizinhas que a testemunhamos enquanto estamos confortavelmente sentadas em nosso home office a um pequeno passo de uma ligação anônima para o 180. Nós e nossos vizinhos e vizinhas poderíamos denunciar essas violências e, muitas vezes, não o fazemos porque o machismo nos oprime a intervenção em situações domésticas, e eu preciso, amiga, que você pense sobre isso como eu mesma estou pensando agora…

Depois de eu falar tanto, você pode até estar se perguntando, “Sim, Lívia, mas o que eu posso fazer? Por que você está falando comigo e não com os homens que fazem isso? Então, agora eu terei que resolver tudo, de novo, mais uma vez?”

Eu, em resposta, posso te provocar e dizer que a nossa língua, a portuguesa, como muitas outras, é machista e nos condiciona, a escolher com quem ou de quem falamos, limitando os lugares de masculino e feminino para ele e ela. Mas, e se rompêssemos com isso ao menos um pouco, agora, aqui, como num acordo de honra, e se combinássemos que aqui, provisoriamente, quando converso com você, minha amiga, no pretenso feminino da língua, estou, na verdade, falando com mulheres e homens cis, trans, não-binários, não-brancos e brancos, enfim, que as fronteiras foram rompidas e que eu estou convidando você, que está me lendo, a entrar na luta.

Depois dessa nossa travessia, peço que me diga, você está disposta a seguir comigo, amiga?

Com respeito e amor,
Lívia Natália

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Lívia Natália é poeta e pós-doutora em Literatura pela Universidade de Brasília (UNB). Professora de Teoria da Literatura na Universidade Federal da Bahia (UFBA) é autora dos livros Água Negra (Prêmio Banco Capital de Poesia/2010), Correntezas e Outros Estudos Marinhos (2015), Água Negra e Outras Águas (2016), Dia bonito pra chover (Prêmio APCA de Melhor Livro de Poesia do ano de 2017/ Ed. Malê, 2017) e Sobejos do Mar (2017).