Quilombos, territórios de resistência social e cultural

Mais do que reivindicar um território, a luta quilombola é pela preservação da identidade

kilombo, palavra de origem bantu:  ‘união; cabana, acampamento, arraial’

No mês da Consciência Negra, queremos destacar a luta e a resistência do povo negro pela reafirmação de seus direitos e preservação de seu legado histórico. Neste sentido, é fundamental caracterizar a importância da formação dos quilombos como espaços de resistência cultural e de organização social dos povos africanos escravizados, libertos e seus descendentes, bem como sua manutenção ao longo do tempo e necessária preservação. 

Segundo dados do Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul, o estado possui 146 comunidades quilombolas. Onze desses territórios estão localizados na capital, conforme aponta o recém apresentado Atlas da Presença Quilombola em Porto Alegre*, sete certificados pela Fundação Cultural Palmares e quatro auto declarados. Na cidade, localiza-se o primeiro quilombo titulado localizado em território urbano do país, da família Silva.

Localizado em área atualmente muito valorizada e objeto de especulação imobiliária, o quilombo dos Silva representa uma marca viva da presença histórica da comunidade negra e pobre em um bairro hoje majoritariamente branco e de classe média-alta. “Por todo o país, diversas são as áreas de conflito fundiário, e somente a luta organizada das comunidades e dos movimentos sociais pode barrar estes ataques ao direito à terra das comunidades tradicionais”, destaca Marco Velleda, diretor de Política e Formação sindical do Sindjus/RS. O dirigente conta que o Sindjus participou de mobilizações em defesa da permanência das famílias no local, sensibilizando servidores e magistrados para a importância de preservar o quilombo, frear o avanço dos condomínios de luxo sobre a  área e garantir a adequada demarcação da região. “O retrocesso dos últimos anos aponta para a necessidade de retomarmos essa pauta e reforçar a resistência por essa e outras comunidades”, pontua.

Atualmente, muitos territórios quilombolas são ameaçados com tentativas de desapropriação, sendo alvo de disputas judiciais. A comunidade do Quilombo Lemos, localizado na zona sul de Porto Alegre, enfrenta há anos uma batalha na Justiça pelo direito de permanência no território, localizado na Avenida Padre Cacique. As famílias que residem no local lutam contra a série de decisões pela reintegração de posse em favor do Asilo Padre Cacique.

Além da luta pela terra, as comunidades tradicionais reivindicam a execução de políticas públicas para atender suas especificidades, especialmente em relação ao acesso à saúde. (Saiba mais em https://bit.ly/3xld7B1

Mais do que espaços seguros de convívio para negros que conseguiam, pela fuga ou alforria, libertar-se da escravidão, os quilombos foram e são locais de organização comunitária e de preservação de princípios e valores próprios, de cooperação e trabalho coletivo, e carregam a história viva da resistência do povo negro.


Defender a preservação dos quilombos é lutar pelo direito à liberdade, à terra, à autodeterminação e à memória. 

O quilombo resiste! 


*Confira a versão digital do Atlas da Presença Quilombola em Porto Alegre/RS:

https://www.editoraletra1.com/epub/978-65-87422-19-0/