Novembro Antirracista: A história e o legado de Lélia Gonzalez

A partir desta edição, em todos os anos o Novembro Antirracista, promovido pelo Coletivo pela Igualdade Racial (CIRS) e pelo Sindjus/RS, vai destacar personalidades com contribuições para a luta antirracista e difusão da cultura africana e afro-brasileira. 

Em 2021, a homenageada é a intelectual e ativista Lélia Gonzalez, que foi pioneira nas discussões sobre relação entre gênero e raça, propondo uma visão afro-latino-americana do feminismo, cujo pensamento abrange questões filosóficas, de psicanálise e do candomblé.

 

História

Filha de um operário negro e de uma empregada doméstica descendente de indígenas, Lélia nasceu no dia 1° de fevereiro de 1935, em Belo Horizonte (MG). Em 1942, a família se mudou para o Rio de Janeiro, para acompanhar um dos 18 filhos que foi jogar futebol em um clube carioca.

No Rio, graduou-se em História e Geografia, fez mestrado em Comunicação e doutorado em Antropologia Política. Atuou como professora em escolas de nível médio, faculdades e universidades.

Lélia, 1951, 1966 e 1968 (da esquerda para a direita)/Fotos: Acervo Lélia Gonzalez, Projeto Memória.

 

Produção intelectual

Pioneira ao abordar a desigualdade de gênero e raça, em entrevistas Lélia refere-se ao período de graduação como de “embranquecimento”. No entanto, as principais reflexões sobre a questão racial surgem na época do seu casamento com o espanhol Luiz Carlos Gonzalez, amigo da faculdade, em 1964, e a não aceitação da relação por parte da família do companheiro. 

Foi aos 30 anos, após a morte por suicídio do marido, que Lélia Gonzalez mergulhou em duas áreas nas quais buscou cura e autoconhecimento e que acabaram virando referência em seu trabalho: a psicanálise e o candomblé.

Rio de Janeiro, 1968. Foto: Acervo Lélia Gonzalez, Projeto Mémoria.

Em 1976, ministrou o primeiro curso institucional de cultura negra do país, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Ela defendia o conceito de cultura plural e como elemento de conscientização política. No curso, propôs análises das contribuições africanas na formação histórica e cultural brasileira, e incluiu no currículo aulas práticas de capoeira, de dança afro-brasileira e conhecimentos de religiões de matrizes africanas.

Uma das primeiras obras publicadas pela ativista foi o artigo “Mulher negra: um retrato” e, na década de 1980, publicou seu primeiro livro “Lugar de negro” em parceria com o sociólogo Carlos Hasenbalg. A obra trouxe um panorama histórico do modelo econômico de 1964, a inserção da população negra neste cenário e o resgate histórico dos movimentos sociais negros. Publicou em 1987 o livro “Festas Populares no Brasil”, onde registra as festas populares espalhadas pelo país, traduzindo a diversidade das manifestações culturais de cunho religioso ou não. Além das festividades, a obra mostra os laços indissociáveis entre Brasil e África.

 

Ativismo e feminismo

Como ativista, Lélia Gonzalez participou da resistência e luta do movimento negro contra a ditadura militar e foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU) no ano de 1978. Na Assembleia Nacional Constituinte participou escrevendo discursos e elaborando propostas do movimento negro. Já nos anos 1980, foi indicada para o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) e candidata a deputada federal (1982 e 1986), conquistando a suplência em ambas as oportunidades.

Lélia Gonzalez e Angela Davis nos Estados Unidos, em 1984. Acervo pessoal.

 

Lélia Gonzalez também foi pioneira ao abordar a importância da interseccionalidade dentro do movimento feminista e também a necessidade de recortes regionais, no que chamou de feminismo afro-latino-americano. Desta forma, promoveu a mobilização de mulheres negras, ao apontar que no movimento feminista havia a manutenção da ideologia racista, e que no movimento negro também havia a mentalidade machista, apontando para a necessidade de um espaço próprio de discussão do feminismo negro. 

 

Memorial

Lélia Gonzalez faleceu em 10 de julho de 1994, aos 59 anos, no Rio de Janeiro, vítima de problemas cardiorrespiratórios, em decorrência de complicações com diabetes mellitus, doença diagnosticada dois anos antes.  

Em fevereiro deste ano, a família lançou o projeto “Lélia Gonzalez vive”, que é uma  espécie de acervo virtual nas redes sociais, que reúne os principais aspectos da vida e obra da intelectual. O conteúdo está disponível no Instagram e Facebook.

 

Livros para conhecer mais sobre Lélia Gonzalez:
(Fonte: El país)

Por um feminismo afro-latino-americano (Zahar, 2020)

Organizado por Flavia Rios e Marcia Lima. Mais abrangente coletânea de textos de Lélia Gonzalez até agora, reúne ensaios acadêmicos, artigos para a grande imprensa e mídia alternativa, discursos e palestras internacionais elaborados pela autora de 1975 a 1994, além de entrevistas com ela.

 

Lélia Gonzalez – Primavera para as rosas negras (UPCA, 2018)

Organizada pela União dos Coletivos Pan-Africanistas, esta coletânea independente foi a pioneira em recuperar os trabalhos da autora, em uma seleção abrangente que também inclui entrevistas. A introdução é da historiadora Raquel Barreto, especialista nas obras de Gonzalez e de Angela Davis.

 

Lélia Gonzalez (Selo Negro, 2010)

Escrito por Alex Ratts e Flavia Rios. Biografia de Lélia Gonzalez conta a trajetória de vida da pensadora com uma abordagem sociológica e com dados históricos do movimento negro no Brasil. Faz parte da coleção “Retratos do Brasil Negro”, que já perfilou nomes como Sueli Carneiro e Abdias Nascimento (1914-2011).

 

Festas populares no Brasil (Index, 1987)

Escrito por Lélia Gonzalez a partir de imagens de diferentes fotógrafos. Foi a incursão da autora, que acompanhou os trabalhos de campo em festividades por todo o país, na antropologia. A editora Boitempo anunciou recentemente a intenção de reeditar a obra, mas ainda não há data para publicação.

 

Lugar de negro (Marco Zero, 1982)

Escrito por Lélia Gonzalez em parceria com o sociólogo argentino Carlos Hasenbalg (1942-2014). Na clássica obra, a pesquisadora aborda a história do movimento negro desde o golpe de 1964, incluindo a criação do Movimento Negro Unificado (MNU).