É preciso desacomodar para acordarmos: a luta antirracista se faz todos os dias

“Peço licença aos mais velhos, aos mais novos, aos orixás”

À sombra da figueira anciã, em frente a uma senzala, aos fundos de uma casa grande, foi aberto o I Encontro Antirracista do Sindjus, em Pelotas. Um momento histórico para resgatar legados, exaltar a força do povo negro, unir forças na luta antirracista. A iniciativa partiu do Coletivo pela Igualdade Racial do Sindjus (CIRS) para encerrar as atividades do Novembro Antirracista promovido pelo Sindicato.

O local escolhido para sediar o evento foi um desafio à parte. A charqueada São João traz em sua história o peso e a dor de muitas vidas negras que por ela passaram. Negros e negras vindas de África, separadas de suas famílias, arrancadas de sua cultura, privadas de sua fé, açoitadas pelo capataz, pelo medo, pelo abandono, foram essas pessoas que forjaram a riqueza da região e sustentaram nas costas o modo de produção que fez da região sul do estado um dos polos econômicos mais importantes da história do país no período colonial. O local preserva traços da violência sofrida pelos negros que lá trabalharam; ao lado da grande figueira, o tronco onde os escravizados eram amarrados e torturados. A casa grande abriga instrumentos de tortura, como correntes e bolas de ferro, marcadores usados para o gado e para castigar os cativos que tentavam fugir.  

Iniciando os trabalhos do dia, a Iyalorixá Mãe Gisa de Oxalá e Pai Paulo de Xangô comandaram a sequência de cantos aos orixás, pedindo licença, proteção e as bênçãos para que o encontro transcorresse bem. Silêncio e respeito do público para ouvir atentamente as saudações em iorubá acompanhadas pelos toques dos instrumentos sagrados. Palmas e joelhos ao chão dos devotos presentes. 

 

Ventos de mudança

O rito de abertura foi seguido de relatos emocionados e emocionantes dos presentes. Negras e negros, impactados pela história do local e por suas próprias histórias de vida, que deixam claro que o racismo foi um alicerce da sociedade brasileira mas não ficou no passado, machucando fortemente ainda hoje.

Impossível não se emocionar ao ouvir o relato do Mestre Griô Dilermando Freitas, que luta para manter viva a tradição do tambor de sopapo, instrumento gaúcho criado por negros. Por meio de projetos junto às escolas e comunidades carentes, ensina a confecção dos instrumentos aliada à cultura e contos sobre os orixás africanos. O faz como forma de resistência ao sistema tradicional de ensino, ao qual por muito tempo não sentiu pertencimento, o que o fez afastar-se da escola quando criança, e retorna hoje, por entender a educação como instrumento fundamental para recontar a  história da presença negra no país. “A História da gente está aqui e a gente precisa ressignificar a História”, enfatiza. 

 

O mestre lamentou a condição do povo negro e destacou a realidade cruel de não ter sequer o direito de poder correr na rua sem ser visto com suspeita. Formado em Educação Física, contou que gosta de se exercitar e em uma oportunidade foi seguido por policiais quando fazia a atividade. Em outra ocasião, o filho jovem foi preso e algemado por estar em espaço público próximo ao local onde ocorrera um assalto, simplesmente por ser negro. “A gente não tem o privilégio de andar na rua”, contou.

 

Rossano Bastos, dirigente do Sinjusc, exaltou a importância da realização de encontros como o promovido pelo CIRS para debater e unir esforços na luta antirracista, saudando a iniciativa e seu significado simbólico. “A força de nossa união nos conduzirá à justiça e nos levará à misericórdia de Xangô”, citou, fazendo referência ao orixá africano que representa a Justiça. 

Convidada como palestrante, Daiana dos Santos (PCdoB) é vereadora em Porto Alegre, cidade que elegeu em 2020 uma bancada com cinco parlamentares negros, sendo quatro mulheres. Filha de mãe solteira, moradora de comunidade, negra, lésbica, reforçou a responsabilidade de atuar no Legislativo para levar as demandas do povo a uma Casa há muito dominada pelo conservadorismo e pela branquitude. “É impressionante a força que este povo tem. Tenho muito orgulho de representar este povo num estado particularmente misógino e racista”, destacou.

O impacto da luta negra e antirracista no resultado das últimas eleições municipais também foi destaque na fala de Andréa Ferreira, diretora do Sindijus-PR, que lembrou que Curitiba elegeu sua primeira vereadora negra da história. “Em nosso país, se esconde essa questão (racismo). Precisamos provocar essas discussões não só no mês da consciência negra, mas o ano inteiro”, pontuou.

Vereador em Pelotas, Júlio Araújo (PSOL) também saudou o momento que sinaliza os ventos de mudança na sociedade, com aumento expressivo de negros em espaços como o Legislativo. Em sua avaliação, “não existe democracia se a gente não superar o racismo”. Além de eleger a maior bancada negra da história do município na última eleição, durante o mês de novembro, Pelotas chegou a ter 100% de parlamentares negros pautando o trabalho da Câmara, movimento simbólica e politicamente marcante para o município que tem proporcionalmente a segunda maior população negra do país.  

Representando o mandato do deputado estadual Jeferson Fernandes (PT), o jornalista Eduardo Silveira destacou a importância da luta pela lei de cotas no Judiciário como medida para ampliar os espaços no Poder ainda essencialmente branco. Bisneto de negra escravizada, Eduardo também salientou o efeito que a luta pela representatividade teve nos resultados nas últimas eleições e alertou que é possível e fundamental chegar ainda mais longe. “Há uma mudança acontecendo. Hoje a gente tem que atentar especialmente quanto à nossa palavra, a gente precisa dar voz a quem ainda não a tem totalmente”.

 

A dirigente da Fenajud e do Sinjap, Anne Marques, atravessou o país para participar da atividade, dada a importância do tema. Em sua fala, destacou que “conhecer e compreender a história e a luta dos nossos irmãos negros é um dever e um presente para todos nós”. E ressaltou a importância desses movimentos para mudar a perspectiva para as gerações futuras: “nossos filhos precisam compreender para fazer parte desse processo de mudança e ressignificação”, pontuou.

 

Emanuel Dall’Bello, um dos organizadores da atividade junto ao CIRS, fez em sua fala um apelo à branquitude, que em sua avaliação tem que reconhecer seu privilégio e questioná-lo para avançar na luta antirracista. “É uma honra participar da construção de espaços coletivos de resistência, de reflexão e de combate”, pontuou. Destacou, ainda, que essa discussão no âmbito da Justiça estadual se faz urgente. Com percentual de 3% de negros no Judiciário gaúcho, esse abismo de representatividade faz da instituição “um dos espaços mais opressores, não só na presença, mas também nas decisões”. Nessa medida, é fundamental discutir o tema em todos os âmbitos da vida privada e pública, inclusive no trabalho dos movimentos sociais e entidades de classe. “Não existe sindicalismo sem abertura para sair da pauta corporativa e discutir a sociedade”, assinalou.

O encerramento das atividades da manhã teve mais um momento de espiritualidade, com a união de todos os presentes em um abraço simbólico à grande figueira, acompanhado de cantos aos Pretos Velhos, entidades que simbolizam a sabedoria de negros escravizados. 

 

Reparação não é benefício

Na parte da tarde, foram realizadas duas mesas temáticas. A primeira trouxe o questionamento “Existe racismo no Sistema de Justiça?”. Para dissertar sobre o assunto, foi convidada a diretora do Sindjus-PR, Andréa Ferreira. Ela iniciou sua apresentação com o poema de Conceição Evaristo, “Certidão de óbito”:

“Os ossos de nossos antepassados

colhem as nossas perenes lágrimas

pelos mortos de hoje.

 

Os olhos de nossos antepassados,

negras estrelas tingidas de sangue,

elevam-se das profundezas do tempo

cuidando de nossa dolorida memória.

 

A terra está coberta de valas

e a qualquer descuido da vida

a morte é certa.

A bala não erra o alvo, no escuro

um corpo negro bambeia e dança.

A certidão de óbito, os antigos sabem,

veio lavrada desde os negreiros.”

 

A dirigente sindical ressaltou que “o racismo permeia todas as relações neste país” e que, como não poderia ser diferente, “o sistema de Justiça reproduz as desigualdades e atua na sua manutenção”. Em seguida, apresentou alguns dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre “a cor do Judiciário”. Segundo o último levantamento realizado, atualmente 80% dos magistrados homens são brancos. Entre as mulheres, o dado é ainda mais expressivo: mulheres brancas somam 85.8% do total de juízas e desembargadoras. O abismo de representatividade segue quanto aos servidores da Justiça no Paraná: apenas 769 declaram-se pretos ou pardos num universo de 8976 trabalhadores. Apontando a discrepância dos números em relação à realidade da sociedade brasileira, Andreia faz uma provocação: “qual é a cor que um negro encontra quando acessa o Judiciário?”

Segundo Andreia, a pessoa não negra não possui a vivência de sempre ser vista como culpada, e justamente por isso muitas não compreendem o racismo. Ela destacou que há padrões no imaginário social formados sobre o negro. A sociedade brasileira é fundada em bases racistas, com um pensamento que não enxergava negros como sujeitos de direito, sequer como seres humanos, e acreditava-se que não tinham alma. Este elemento fundante da sociedade tem como efeitos ainda hoje a desigualdade de oportunidades, a redução de perspectivas de mobilidade social, a morte de jovens negros e o encarceramento atingindo majoritariamente a população negra. “Este raciocínio ainda permeia todo o tecido da sociedade”, pontuou. Isso se reflete na História também na maneira como o Judiciário se comportou diante dessa realidade, criminalizando tudo que era negro, como a capoeira, a religião, a música, a cultura em geral, numa “percepção de que tudo que pertencia ao negro era ruim”. Nesse sentido, ainda vê o “Judiciário comprometido com a estrutura racista” e reforça a necessidade de ações concretas para reverter este quadro.

O pelotense Fábio dos Santos Gonçalves falou de sua vivência como jovem que veio da periferia, da pobreza, e tornou-se historiador, advogado, professor, compreendendo que sua história é exceção em meio a um contexto de ausência de oportunidades. Nesta medida, destacou que “o universo do mundo jurídico silencia sobre as nossas coisas” e reforçou a importância de compreender as medidas de reparação como iniciativas de buscar tardiamente a equidade, nunca como benefícios. Abarcando a necessidade de revisar a perspectiva histórica, alertou que é necessário abandonar conceitos como o de “escravo”, condição imposta que reflete a “sub-humanização” a que o povo negro foi submetido. “Chamar de escravos tira a legitimidade da nossa história”; neste sentido, o termo correto é “escravizado”. Mesmo com a abolição formal da escravidão, negros não foram integrados à sociedade brasileira e logo sua existência foi criminalizada, inclusive com o amparo de leis. O tempo avançou e a estrutura da sociedade sequer permitiu o acesso à educação, pontuou. Somente no século XXI iniciaram os diplomas legais reparatórios (leis que buscam acionar mecanismos de reparação às desigualdades fundadas pela sociedade racista, como a instituição de cotas no ensino superior e a determinação do ensino de história e cultura africana nos ensinos fundamental e médio).

Em relação à baixíssima representatividade de negros no poder Judiciário, questionou: “como esperar de uma justiça, que sequer se aproxima de qualquer representação de negritude, que ela tenha compreensão? É inquestionável que somos paradoxalmente invisíveis no universo do Judiciário (apesar de maioria na sociedade)”. A branquitude não percebe porque normaliza a não presença de negros em espaços de poder. Ao sentenciar “A ideia de raça é filha do racismo e não o contrário”, pontuou que nenhum crime na história da humanidade é comparável ao crime suportado pelo grupo social dos negros.

Em seguida, uma apresentação de música e dança do Mestre Dilermando com o grupo Odara fez um resgate da ancestralidade e da fé que atravessa a história e a resistência do povo negro. 

 

Na segunda mesa, “520 anos de escravidão e a luta do povo negro”, o integrante do CIRS, Luiz Mendes, mencionou a magnitude do encontro no sentido de promover a reflexão e o aprendizado para todos os presentes e para fomentar o debate na categoria e na sociedade. Militante do movimento negro há mais de 30 anos e um dos idealizadores do I Encontro Antirracista, Luiz celebrou  o evento como um “momento ímpar de ancestralidade, amor e bases concretas para uma revolução contra o racismo, contra a exclusão social, contra a marginalidade e contra a forma que o racismo estrutural brasileiro atinge homens e mulheres negras, principalmente no Poder Judiciário”. 

Em seguida, a historiadora e Mestre em Educação Ledeci Coutinho fez uma fala contundente para provocar o debate. Nascida e criada em quilombo, a professora e ex-secretária de Educação de Canguçu falou sobre sua luta em defesa da visibilidade das comunidades quilombolas da região sul do estado no sistema de ensino. “A dor da discriminação e do preconceito nos mata todos os dias”. Na perspectiva histórica, explicou o processo de desenvolvimento da região sul a partir da exploração violenta e da apropriação do conhecimento tecnológico dos negros sobre a produção fabril antes mesmo da Revolução Industrial, que foi fundamental para o crescimento da região. “Este novo continente não seria o que é sem o trabalho e o conhecimento tecnológico dos negros”, afirmou.

Ela destacou o papel da branquitude na manutenção do racismo nas relações sociais e defende que, por isso mesmo, é dever dos não-negros comprometidos protagonizar a luta antirracista em ações diárias e permanentes. “A nossa potência explica por que a branquitude quer nos silenciar”. Nessa medida, pontuou, é indispensável que se adotem condutas antirracistas na vida, repreendendo comportamentos racistas, e em relação ao trabalho na Justiça, por exemplo, ao lidar com os processos e demandas que chegam ao Judiciário. “O Judiciário foi construído para moer carne de negro e de índio. O Brasil e o Judiciário agem hoje como em 1500”. Para ela, a eleição de Bolsonaro não trouxe novidade, mas apenas expôs mais claramente a realidade, abrindo uma ferida: o Brasil é racista. Para vencer este cenário, é preciso “parar de discursar e fazer ações concretas por mudanças concretas”, concluiu.

A vereadora Daiana Santos também fez uma fala no sentido de desacomodar e provocar os não negros sobre seu papel na luta antirracista na sociedade. Chamou a branquitude para a responsabilidade de fazer o enfrentamento ao racismo diariamente e mudar o olhar sobre a vida e o mundo. Fez um paralelo entre o passado escravagista e sua repercussão nos dias de hoje e como o racismo continua a pautar as relações sociais e políticas.

“O açoite moderno é quando a gente vê nosso povo retornando à miséria”, apontou. Ela destacou o processo de “morte simbólica” a que negros e negras são sujeitos diariamente, na invisibilização de sua identidade, história e cultura e especialmente no contexto político de negação de direitos, agravados nos governos atuais. Este fator e a construção social falida explicam sua motivação para ingressar no poder Legislativo e buscar reverberar o sofrimento e as demandas do povo. 

Após 520 anos de opressão, apagamento histórico e violências físicas e imateriais, anuncia-se uma nova realidade, com a construção de espaços de representatividade cada vez mais expressivos.

No RS, depois de um hiato de 24 anos tendo apenas uma vereadora preta na história, a capital gaúcha elegeu uma bancada com cinco negros. “Somos (bancada negra) fruto de um projeto coletivo do movimento negro. Agora temos que ir para o Executivo”, ressaltou. 

No encerramento das mesas, a integrante do CIRS, Silvia Regina Favorino Vasconcelos, de Porto Alegre, fez a leitura de um texto de Lélia Gonzalez, a homenageada da edição de 2021 do Novembro Antirracista.

O servidor da comarca de São Leopoldo, José Manoel de Almeida Neto, interpretou a canção Leilão, de Mônica Salmaso, que fala sobre a venda de negros escravizados, mais um momento de forte emoção da atividade. 

As vozes negras falam mais alto, porque delas é a missão de ecoar o grito de seus antepassados, por muito tempo silenciado. A força e o poder dessas vozes unidas honram o legado de resistência do povo negro nesta terra. É esta potência que impulsiona a luta, que deve ser de todas e todos, para vencer esta realidade vergonhosa que é o racismo. Espaços como este são fundamentais para unir essas vozes, recontar a história como ela de fato aconteceu, para dar o devido significado e a reverência que o povo negro merece. Como bem resume o provérbio iorubá: “Exu matou um pássaro ontem com a pedra que jogou hoje”.

Ainda estamos trabalhando no material coletado nesta atividade tão marcante. Em breve, disponibilizaremos um vídeo sobre o Encontro Antirracista em nossos canais.

Texto: Juliana Campani
Fotos: Grupo REC

 

Na mídia

A potência do 1º Encontro Antirracista também repercutiu na imprensa local. O Diário Popular, de Pelotas, dedicou uma página do jornal impresso para a cobertura do evento e também destacou a importância da atividade em notícia publicada no site: “Hoje, o tempo é aliado para ressignificação da carga cultural que os negros vindos obrigados perpetuaram e deixaram para as futuras gerações”, apontou. Leia AQUI a notícia do Diário Popular.