Comunidade Tradicional de Terreiro – Batuque do RS e o Racismo Religioso

*por Baba Diba de Iyemonja

Espaços de Terreiro nada mais são do que microterritórios de África no Brasil, ou seja, recriação do mundo africano em um espaço diminuto como estratégia de sobrevivência e preservação da cultura e tradição em um mundo branco e ocidental totalmente hostil a tudo que seja de origem africana.

Aqui no Rio Grande do Sul é conhecido como Batuque e nos outros estados como Candomblé, porém não são apenas espaços de cultos, e sim lócus civilizatórios de um povo oriundo de África, onde se preserva o modo e a forma de se relacionar e se organizar para o mundo numa perspectiva afrocentrada.

O Rio Grande do Sul é o segundo estado mais branco do país, porém, contraditoriamente, é o estado com maior número de terreiros do Brasil. Isto mesmo, muito mais que a Bahia ou Rio de Janeiro. Numa estimativa livre, calcula-se que haja 65.000 terreiros em todo o estado. Devido o estado do RS ser considerado o berço do racismo brasileiro, se mantém este número absurdo na subterraneidade política e social. De dia, todo mundo nega, e de noite, todo mundo vai. São raros os bairros das cidades que, quando se vai dormir, não se ouve lá no fundo um barulho de tambores.

O Brasil foi forjado em cima de pensamentos e atos escravagistas e até hoje o estado e a sociedade comportam-se desta forma: subestimando e tentando reduzir tudo que é de origem africana, inclusive negros e negras, que são hostilizados diuturnamente pelo racismo estruturante que rege a sociedade brasileira.

Uma grande diferença da religião de matriz africana para as religiões ocidentais é que Olorum (o criador) ao delegar aos orixás a tarefa de criar o mundo, quando determinou a criação da humanidade disse: “Nascei, crescei, multiplicai e cuidai da Terra”. E este cuidar da Terra consiste em cuidar de tudo que nela há, para que o planeta continue produzindo axé. 

Ao ser delegada aos orixás pelo criador, a tarefa de criar os seres que habitariam o planeta, eles entenderam que a matéria-prima apropriada seria a lama, e de lama foram moldados o primeiro homem e a primeira mulher, ou seja, terra e água. Nós viemos da terra, esta terra que nos dá alimento e remédio, que nos dá o corpo e depois o absorve para que se cumpra um ciclo e novos seres possam nascer. A terra é nossa essência, para nós nada vem do céu.

Se todas as religiões do mundo parassem de louvar o céu e se voltassem para a Terra, o Planeta estaria menos doente, porque é da terra que brota a vida e tudo o que é necessário para mantê-la.

É histórica a perseguição sofrida pelas religiões de matriz africana, bem como todos os segmentos da cultura negra no nosso país, por conta de racismo religioso e/ou intolerância religiosa, que, aliás, segundo o advogado constitucional Dr. Hédio Silva Júnior, é a face mais perversa do racismo brasileiro. 

Ao longo dos tempos, estratégias de defesa e de preservação foram sendo criadas e colocadas em prática por nossos pais e mães de santo. Uma delas era utilizar o próprio medo dos algozes, daquilo que eles desconheciam, como arma para amedrontá-los e, desta forma, diminuir a série de agressões sofridas à época. Daí o surgimento do “feitiço”. Porém, tais estratégias acabaram incorporadas no comportamento religioso e litúrgico do Povo do Axé e esquecidas de serem desmistificadas pelos mais velhos, ficando no imaginário social como parte da “práxis” religiosa.

A luta da religião de matriz africana foi tão intensa, que aspectos teológicos e fundamentais acabaram sendo deixados de lado, fragilizando a sua essência e fortalecendo o sincretismo religioso adotado (embranquecimento) na época como estratégia de defesa e resistência.  

A cosmovisão africana é um exemplo, que concebe o ser humano como ser coletivo e intrinsecamente ligado ao cosmo e ao meio ambiente. A teologia de matriz africana baseia-se na filosofia do Axé, força mítica que rege o universo e engendra vida e contém poder de realização. O ser humano é Axé e está contido nele, e também no culto aos orixás, divindades que compõem as forças da natureza, tanto no reino animal, vegetal, como mineral e que cuidam da harmonia do cosmo, sendo cada representação deste cosmo, o próprio orixá (terra, água, fogo, ar e plantas).

A cada momento em que esta harmonia está ameaçada, os orixás, através do oráculo divinatório (jogo de búzios), indicam um ebó (oferenda) necessário para restabelecer esta harmonia. Tais oferendas devem conter elementos que reforcem a propriedade ecológica dos orixás e que sejam impregnadas deste Axé e devem ser colocadas em locais sagrados o mais próximo da natureza bruta possível (praias, rios, cascatas, matas). 

Este ebó é preparado com todo cuidado e zelo para não utilizar materiais que possam ferir o ecossistema e assim cumprir seu objetivo, do contrário poderá promover a desarmonia.

A palavra fé não traduz nossa relação com sagrado que é intrínseca e integral. O ocidente nos chamou de religião, porém somos uma tradição que considera tudo sagrado e frutos da mesma origem. Tudo.

   

*Baba Diba de Yemonjá é o nome Religioso de Valmir Ferreira Martins
Babalorixá da Comunidade Terreira Ile Àsé Yemonjá Omi Olòdó, Sanitarista – UFRGS, Presidente do Conselho do Povo de Terreiro do Estado do RS, Coordenador Nacional da RENAFRO SAÚDE – Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde  e um dos fundadores do Africanamente

 

Fontes:

Os Nago e a Morte – dos Santos, Juana Elbein – Editora Vozes

Prof. Jayro Pereira de Jesus, Filósofo e Teólogo.