Acervo resgatado: “Queremos que as pessoas possam visitar para conhecer a nossa história, que faz parte da história do nosso Brasil”

Peças que contam parte da História das tradições de matriz africana retidas pela Polícia durante décadas foram finalmente liberadas para destinação adequada

Reparação histórica. Um acervo de mais de 500 peças que ajudam a contar a história religiosa dos povos de origem africana no país finalmente ocupa um lugar de respeito à memória – o Museu da República – após permanecer por 75 anos sob guarda da Polícia Civil do Rio de Janeiro, em prédio que já foi sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). 

A coleção compreende artigos sagrados do candomblé e da umbanda, que foram apreendidos por policiais em batidas realizadas em locais religiosos no início do século, como parte do processo de perseguição às tradições de matriz africana com base em artigos do Código Penal de 1890 e, posteriormente, de 1942. Peças do acervo figuraram no Museu da Polícia até a década de 90, expostas com a alcunha pejorativa “Magia Negra” e junto a objetos ligados a crimes, como armas e material nazista. Posteriormente, foram mal acondicionadas em caixas de papelão e em condições impróprias que aceleraram o processo de deterioração de grande parte do material.

Após intensa mobilização de movimentos sociais, religiosos e pesquisadores, a coleção foi enfim liberada para vistoria, catalogação pelo IPHAN e transferência para o Museu da República. O Movimento Liberte Nosso Sagrado, liderado por Maria do Nascimento, a Mãe Meninazinha d´Oxum, foi um dos principais articuladores da iniciativa. “Queremos que as pessoas possam visitar para conhecer a nossa história, que faz parte da história do nosso Brasil”, declarou Mãe Meninazinha, quando anunciada a transferência da coleção. 

Representantes do Museu da República destacaram que o trabalho de gestão do acervo deve ser compartilhado com as lideranças religiosas, a fim de que não se cometa uma segunda violência com essas comunidades.

Filmes para entender o caso

  • O documentário “Nosso Sagrado” conta essa trajetória e destaca o movimento pela liberação desse acervo para sua preservação e correta destinação

https://www.quiprocofilmes.com.br/pt/filme/nosso-sagrado 

  • Em “Respeita Nosso Sagrado”, a resolução do caso, com o encaminhamento das peças para o Museu da República, no Catete.

https://www.quiprocofilmes.com.br/pt/filme/respeita-nosso-sagrado 

Nesta edição do Novembro Antirracista, buscamos destacar a importância do resgate histórico e da preservação da memória para a valorização do povo negro e da contribuição dos povos africanos para a formação da identidade cultural brasileira.