A tripla jornada de trabalho da mulher em tempos desse “tal de Home Office”…

Cinara Abreu e Maíz Ramos Junqueira 

Mulheres, Trabalhadoras e Mães

Em uma de nossas rotineiras conversas (on line, é claro), combinamos de colocar no papel nossas reflexões sobre os desafios que vivenciamos, na qualidade de mulheres, trabalhadoras e mães, nesse “tal de Home Office”. Rimos quando uma de nós pediu para que o texto fosse iniciado no dia posterior, pois naquele momento encontrava-se em estado de tensão e de sentimentos negativos, o que poderia contaminar a escrita. Situação que ocorre de vez em quando com quem se encontra distanciada socialmente em meio a uma pandemia.

Não se trata de falar bem ou mal dessa nova modalidade de organização do trabalho. No momento em que vivemos, trabalhar em casa torna-se uma necessidade e praticamente uma “benção”, pois muitos trabalhadores continuam expostos a todo tipo de contaminação nos seus cotidianos de trabalho.

Com a pandemia, cada vez mais “o rei está nu”, parafraseando o autor dinamarquês Hans Christian Andersen, que escreveu “A Roupa Nova do Rei”. A crise sanitária, social, política e econômica que vivemos tem escancarado as diferentes expressões das desigualdades que marcam a sociedade brasileira. Dentre elas, as desigualdades de gênero que também se manifestam “nesse tal de Home Office”…

Historicamente o trabalho doméstico e o cuidado das crianças têm sido atribuídos majoritariamente às mulheres, resultando na denominada dupla jornada de trabalho. Tal situação sofreu poucas alterações, apesar do ingresso massivo das mulheres no mercado de trabalho.

O trabalho em Home Office, necessário em meio à pandemia, nos convida a refletir sobre a desigual divisão das atribuições domésticas entre os gêneros. Soma-se a isso, nesse contexto, as tarefas relacionadas ao homeschooling, geralmente também a cargo das mulheres. Podemos falar, então, em “tripla jornada” – trabalho, casa e escolarização dos filhos? 

Não vamos tratar, neste texto, de situações graves que muitas mulheres estão enfrentando – por exemplo, as situações de violência doméstica, agravadas diante da necessidade de ficarem trancafiadas com seus agressores em virtude da pandemia. Estamos na proteção de nossos lares, tendo a oportunidade de cuidar para que nossa família não esteja exposta ao vírus. Só o fato de evitar o deslocamento diário até o trabalho já é uma vantagem significativa e inegável do Home Office. 

No entanto, entre as vantagens do trabalho em Home Office, vivenciamos dificuldades que não podem ser minimizadas ou ignoradas. O trabalho doméstico, desvalorizado e invisível, e a responsabilidade pela escolarização dos filhos (sem sermos professoras) podem nos levar à exaustão. Além disso, precisam ser consideradas as dificuldades de focar nas tarefas do trabalho em meio às demandas dos filhos, que tendem a exigir atenção diante da presença de seus pais em casa.

O tempo presente exige paciência e resisiliência. Requer ainda que tenhamos a capacidade de reconhecer nossos próprios limites, aceitando que em alguns dias nos sentiremos tristes, angustiadas, irritadas e frustradas. Não seremos menos fortes por causa disso, nem devemos nos exigir em demasia. Vai passar. Ficaremos bem. Apesar dos desafios do Home Office, que possamos ficar em casa o maior tempo possível, preservando a nossa vida e a vida de quem amamos.