A arte, a escrita e a linguagem high-tech

Camadas de tinta, nuances de cores, texturas que transpõem a dimensão da tela. A estética de uma pintura evoca impressões, sentimentos e inquietações das mais variadas. Uma área sombreada, que se forma através da incidência da luz sob a textura, forma uma névoa de densas emoções e mistérios, mas também fornece contraste aos olhos para perceber o brilho e o destaque de algumas cores. O sentimento é tocado pelo contato com cada elemento observado e pelo todo da experiência. Ainda não é uma apreciação racional, é uma sensação bruta, que ativa memórias ancestrais de uma relação afetiva com a natureza. A arte é assim: paradoxal, abre uma fenda no tempo presente, nos lembra do nosso estado primordial, cria novos conceitos e aponta horizontes; transgride, mistura sagrado com profano, rompe dicotomias. Capta o fugaz, embrulha para a eternidade. Questiona o real e oferece lampejos para o transcendental.

Camadas de tinta, prensadas sob o metal, carimbam folhas de papel. Registram idéias e histórias através da escrita que atravessam séculos, milênios… Umas promovem discórdia, outras união. Umas incentivam o amor, outras transbordam violência. Umas ensinam sobre compaixão, outras são exemplo de perversão. Umas conectam, outras separam.

Camadas de fibra óptica, nuvens cibernéticas, redes sociais. A linguagem high-tech mobiliza nossa atenção, gera dispersão e ilusão, mas também expande nossa comunicação. Ora oportuniza solidariedade em rede, ora espelha sombras e extravasa rancores. Trata-se de um instrumento, as vezes confundido como protagonista. Tudo bem, não é tão simples: E a inteligência artificial? E os algorítimos? E os celulares que agora “escutam” e transmitem informações? Ah… outro dia ouvi dizer que a culpa é de alguns aplicativos. Estes, por sua vez, foram instalados sem muita atenção, só passamos o olho e clicamos em “avançar” com as “configurações recomendadas”. Yes, i agree. #SQN. Ai vem o marketing individualizado, as propagandas subliminares… Enfim, a liberdade é cada vez mais desafiada.

É importante se conscientizar para entender essa complexa realidade, cada vez mais intermediada, mediatizada, midiatizada. É importante uma educação voltada para aumentar os níveis de consciência sobre os impactos da tecnologia nas relações humanas. Mas não é o suficiente… é imprescindível promover a reconexão com o que a máquina não faz: sentir! Lembra do que falei sobre a arte? Talvez você tenha entendido, racionalizado, mas que tal experimentar? E não precisa ser apenas com a pintura, pode ser com a dança, teatro, escultura, música, poesia, cinema, fotografia… Já se perguntou porque todos dizem o que acham, mas poucos dizem o que sentem?

Na Era da internet ultraveloz, de computadores megasônicos, celulares multifuncionais, com supermemórias e processadores… vamos trabalhar e se relacionar no ritmo deles? Comece observando qual é o ritmo de vida mais adequado para a sua personalidade. Observe seus automatismos, pois estamos constantemente imitando ritmos que não coincidem com o nosso. Mesmo com um complexo organismo biológico, lembremos: somos uma espécie de mamífero que, assim como os outros, caracteriza-se por uma linha tênue que separa a saúde da doença quando agredido pelo meio. Temos limites e se continuarmos desgovernados, desrespeitando-os, sofreremos as consequências.

Não basta ligar os sistemas e deixar que eles te usem. Ao usar a tecnologia, procure sentir para qual finalidade ela lhe serve, deposite claras intenções e se responsabilize por elas.

A tecnologia e a linguagem mudam de forma. Parecem se formar mais e mais camadas de ilusão. Mas por trás de tantos sistemas de comunicação, utilitários e aplicativos, existe sempre um sujeito que fala, embora as vezes se esconda atrás da tela. Ora aparece franzino sob a tutela da vergonha, ora violento como um brutamontes. Consciente ou não, com claras ou nebulosas intenções, vive apertando um botão de “conecta” ou de “separa”. Qual botão você quer apertar?

(Otto Maia, 05/08/2020)