7 de setembro: somos realmente independentes?

“E então, no dia 7 de setembro de 1822, às margens do Ipiranga, Dom Pedro I, etc, etc”.  A história, repetida milhões de vezes aos brasileiros e brasileiras desde a infância, omitiu por muitas vezes que o nosso “herói da independência” Dom Pedro I, nunca deixou de ser herdeiro do trono português e somente após cinco anos da proclamação voltou para Portugal, onde se tornou Rei Pedro IV. 

Se desde o começo a história não é o que parece, será que em algum momento fomos de fato independentes? A realidade é que na maior parte da nossa história os interesses do povo brasileiro foram negligenciados. Se antes o objetivo era atender os interesses de Portugal, no Brasil de 2021 o objetivo do governo central é beneficiar seus familiares, amigos e aliados, em troca das vidas e da fome dos brasileiros e brasileiras.

A alta nos preços e o desemprego histórico empurram milhões para a pobreza extrema e para o subemprego. A marca do desalento e da desigualdade pode ser ilustrada pela longa fila de pessoas esperando por doações de ossos, no mesmo ano em que o país ganha novos bilionários. O gás de cozinha virou artigo de luxo e obriga pessoas mais humildes a cozinhar com fogo de chão – mas o ministro Paulo Guedes fala em “recuperação” e não entende por que o aumento da energia elétrica é um problema. Há alguns anos, o Brasil despontava como uma das nações em franco crescimento; hoje se vê novamente no mapa da fome, no escuro e na subserviência. 

Temos um presidente que desconhece suas atribuições e que idolatrava a tacanha e xenófoba política de Donald Trump, mas com um discurso de falso patriotismo conclama neste dia 7 de setembro uma horda de apoiadores perdidos entre o fanatismo e o delírio, que parecem ainda anestesiados pelos efeitos nefastos da necropolítica e do abandono. Ciente de que desespero e intolerância são uma combinação explosiva, aquele que deveria liderar a nação incita a radicalização com palavras desmedidas e inconsequentes, teorias conspiratórias e criando inimigos por toda parte. Faz isso, decerto, para acobertar sua total incompetência para governar e o fato de sua família estar afundada em escândalos de desvios de dinheiro público e envolvimento com milícias. Bradando contra seus desafetos políticos e com demonstrações diárias de desprezo pela democracia, o homem que desdenha das quase 600 mil mortes com passeios de motocicleta e aglomerações sem máscara se diz um “patriota”. 

Patriotismo? Patriotismo neste 7 de setembro é dizer não à política de morte, que enlutou centenas de milhares de famílias na maior crise sanitária dos nossos tempos. Patriotismo é dizer basta para os escândalos de corrupção comandados por militares. Patriotismo é lutar para que a comida chegue nos pratos das famílias famintas e das crianças que estão tendo seu desenvolvimento comprometido. Patriotismo é se indignar com a ausência de políticas públicas para os quase 15 milhões de desempregados, que com a alta abusiva do combustível (7 reais!) perderam também a oportunidade de trabalhar em aplicativos de entrega e transporte, tirando-os da informalidade para pior.  

A maior demonstração de patriotismo e civilidade de nossa história recente estamos testemunhando agora, com os povos tradicionais que ocupam Brasília pela defesa de seus territórios e pelo direito de viver conforme sua cultura. Ocupam a capital federal enfrentando o poderio econômico que dita as regras da nossa gloriosa nação desde antes da  “independência” e o descaso do governo, sem visibilidade e sem virar notícia na grande mídia. 

Neste 7 de setembro, defensores da política de morte de destruição estarão nas ruas, na derradeira tentativa de demonstração de força antes de sucumbirem ao mar de lama que criaram. Interesses escusos patrocinam movimentos antidemocráticos e insuflam a barbárie.

Mas a rua não é deles.

Também haverá povo na luta pelas boas causas. Ainda que limitado pela pandemia, o Grito dos Excluídos é a resistência, a união daqueles que se recusam a aceitar a destruição e a opressão, a fome e a doença, o autoritarismo e a ignorância. É o grito de todos nós.

O desgoverno tem provocado grandes estragos. Mas é importante lembrar do dever de quem realmente ama o Brasil. Após o caos, temos um país para reconstruir, uma bandeira para retomar e um povo sofrido que grita pela vida, pela dignidade, enfim, por sua verdadeira independência.