Um feminicídio a cada sete horas no Brasil é um dado assustador.  Ser mulher e sobreviver, neste país, é um desafio.

    No dia 08 de março recebemos muitas mensagens, homenagens e flores. São muitos “parabéns” pelo nosso dia, desde o momento em que acordamos. Ficamos gratas, mas não podemos esquecer o real significado dessa data.

    Esse dia marca a luta das mulheres pela garantia dos seus direitos. E um dos direitos fundamentais pelos quais ainda lutamos é o direito à vida

    O número de mulheres assassinadas por crimes de gênero em 2019 aumentou 7,3% em relação a 2018. São 1.314 mulheres mortas pelo simples fato de serem mulheres – em média, uma a cada sete horas¹. Simplesmente assustador.

    O feminicídio é a manifestação mais grave da violência contra a mulher, mas não é a única. Há outras formas de violência menos visíveis e que acabam se tornando mais difíceis de serem identificadas/denunciadas/rompidas.

    A violência atinge as mulheres de uma maneira diferente em relação aos homens. O espaço privilegiado da violência cometida contras as mulheres é o âmbito privado. Os homens, por sua vez, têm o espaço público – as ruas – como lócus privilegiado de vitimização.

    No espaço privado, do lar, a violência contra a mulher muitas vezes se apresenta de maneira sutil, quase invisível. É a chamada violência psicológica que marca os relacionamentos abusivos. Perpetrada por pessoas próximas (maridos, companheiros, familiares), essa modalidade de violência acaba fazendo parte do cotidiano de muitas mulheres, sendo internalizada como parte da vida, “sapos que precisam ser engolidos”.

    O problema de “engolir os sapos”, ou seja, tolerar críticas excessivas, xingamentos, chantagens, ciúmes e atitudes carregadas de controle é que o ciclo da violência tende a avançar. A violência não começa no feminicídio, mas na vida cotidiana. Pequenas falas e gestos machistas são naturalizados e até apreciados – “você não vai sair com essa roupa”… “você não vai sair sem mim”… “sou eu que decido”… 

    Não se trata de uma regra, mas de uma tendência. A violência tende a aumentar. Conforme nos ensinou Hannah Arendt, a violência está associada à questão do poder. No contexto em que estamos refletindo, trata-se do poder e da dominação masculina, fenômeno histórico, cultural, recorrente e continuado no nosso país.

    É preciso barrar o ciclo da violência. Quando ela já se encontra instalada, mesmo que de maneira sutil, velada, quase invisível, é fundamental que cada mulher encontre apoio e acolhimento para conseguir romper com essa experiência. A violência contra a mulher é um ato de poder e, como tal, deve ser combatida mediante o empoderamento de suas vítimas. 

    No dia 08 de março, e nos demais dias do ano, a luta em prol dos direitos das mulheres continua. Que as mulheres possam adotar, no seu cotidiano, o conceito de sororidade, tão profundo e transformador: diz respeito a uma relação de irmandade, de união, de afeto e de amizade entre as mulheres, que busca o apoio mútuo e a luta pelos seus direitos, notadamente o direito de vivermos e sermos livres.

 

Maíz Junqueira

Assistente Social – Servidora da Justiça do RS

 

*¹  Fonte: Monitor da Violência, que consiste em uma parceria entre o G1, o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.