Segundo dia de seminário “O Futuro do Trabalho” alerta sobre precarização e convoca para a resistência

No segundo dia de atividade, realizado na noite desta quarta-feira (27/10), o Seminário “Assédio, violência, saúde e cuidado” trouxe reflexões sobre como as transformações promovidas pelo capitalismo no mundo do trabalho e como estes processos resultam no adoecimento dos trabalhadores e trabalhadoras, a partir de violências objetivas e subjetivas.

No painel que contou com a participação da doutora em Sociologia e professora da Universidade Federal do Acre (UFAC) Luci Praun, e do doutor em Estudios Sociales de América Latina pela Universidad Nacional de Córdoba (UNC/Argentina) Pedro Lisdero, que apontaram a necessidade de um olhar atento para a precarização das relações de trabalho e a importância da atuação dos sindicatos e estudiosos sobre o mundo do trabalho para identificar e reverter essas tendência. A mediação foi  Mateus Graoske.

Precarização e flexibilização

Apresentando um breve contexto histórico sobre a precarização dos trabalhadores, Luci Praun aponta que “as mudanças no mundo do trabalho estão diretamente ligadas às mudanças no capitalismo”, que passou de um “padrão de acumulação de capital, que entra em crise no fim dos anos 1980/1990, e dá espaço para um padrão flexível”, explica. 

É neste contexto que surge um conjunto de formas de contratação precárias e flexíveis,  ancoradas na inserção das novas tecnologias, que resultam de processos concorrenciais do capitalismo para exploração do trabalho.

Este aspecto também é salientado por Pedro Lisdero, que em um estudo realizado na argentina com os trabalhadores que atuam em aplicativos de delivery identificou que essas pessoas se enxergavam com colaboradores e adesão ao discurso de flexibilidade e baixo índice de associatividade e “a naturalização de condições vivenciadas de forma natural e despercebida”. 

 

Adoecimento

Na avaliação de Praun, essas violências subjetivas resultam em um adoecimento cada vez maior da classe trabalhadora:“As queixas nem sempre ocorrem em nível imediato, primeiro ocorre um envolvimento acentuado e esses sinais começam a aparecer após o adoecimento. 

Ela aponta que este ambiente social, consequências das transformações do capitalismo, criou nos trabalhadores um sentimento de autorresponsabilização e “num processo de individualização, resultado de uma precarização objetiva e subjetiva”, afirma Praun. 

Para Lisdero, a pandemia acentuou tendências que já vinham se desenvolvendo na sociedade, “especialmente para os setores de trabalhadores mais precários e vulneráveis, especificamente aqueles milhões de pessoas que passam pelos diversos empregos ‘atípicos’ e que garantem cotidianamente o funcionamento das grandes massas urbanas da América Latina”.

 

Presente e futuro

Analisando esse contexto de precarização e flexibilização, os painelistas abordaram a necessidade de reflexões e ações que possam desencadear um conjunto de mudanças com reflexos no presente e no futuro. 

Segundo Pedro Lisdero, é necessário “gerar uma agenda de reflexão e ação sobre os possíveis cenários futuros de trabalho na pós-pandemia”, que considere esses processos de estruturação social geradores dos conflitos sociais. 

Neste sentido, a professora da UFAC chama atenção dos sindicatos e pesquisadores que estudam as as relações de trabalho que os processos de precarização caminham junto com precarização social:  “as mudanças não são pontuais e comprometem as gerações futuras pelas condições degradantes, redução dos direitos e dos acessos, instrumentalização e mercantilização da educação”, alerta. “ou reaje, ou resiste, ou tenta mudar o curso dessa história. Caso contrário, vamos pagar muito caro e deixaremos um legado de profunda barbárie para as gerações futuras: que a gente dispute a resistência”, finaliza.

 

Organização

O Ciclo de Seminários é realizado pelo Laboratório de Sociologia do Trabalho da Universidade Federal de Santa Catarina (Lastro/UFSC), e pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Trabalho Público e Sindicalismo (Fazendo Escola), que é vinculado ao Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário do Estado de Santa Catarina (Sinjusc), Sindicato dos Servidores da Justiça do Estado do Rio Grande do Sul (Sindjus/RS) e Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal no Estado de Santa Catarina (Sintrajusc).

A programação completa com os demais seminários do Ciclo Internacional “O Futuro do Trabalho” está disponível em: futurodotrabalho.ufsc.br. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas AQUI. Será fornecido certificado de 12 horas para quem participar de pelo menos cinco seminários.

A palestra está disponível na íntegra no canal do Youtube do Fazendo Escola.