Flores diárias

Falar sobre o Dia Internacional da Mulher nos remete às várias mulheres incríveis, que através do tempo marcaram a história nos inspirando. A todas devemos nossas reverências, pela força e resistência contra uma sociedade estruturadamente patriarcal.  Mas aqui, resolvi falar sobre algumas das mulheres do meu dia a dia, aquelas que atendo no balcão do Juizado da Infância e que são inspiradoras e incríveis tanto quanto.

Como Margarida, que incansável  vai saber como estão os processos  do seu filho, que quando pequeno foi comprar pão no mercadinho  e atropelado está para o resto da vida. Com uma lista de números de processos na mão, um para home care, outro para os remédios, outro para fraldas, outro…  busca socorro e ajuda para proporcionar-lhe melhores condições de viver. Paga seus impostos, mas não recebe do Estado, incompetente, o que seu filho precisa para viver com menos sofrimento, mas não desiste,  porque é uma mulher incrível!

Incrível como Violeta, que chega ao balcão e diz: vocês podem mandar alguém buscar meu filho lá em casa, ele está na cela. Na cela? Sim, coloquei grades na janela e porta do quarto dele e ontem apareceu e dormiu  lá em casa e eu consegui prendê-lo.  Diz tudo isso sem mexer um músculo da face, sem chorar, sem piscar, porque  já dilacerada pelo sofrimento seu rosto ficou estático, duro, por tentativas e tentativas de recuperar o filho,  que não consegue se amar e perdido na vida encontrou as drogas, mas ela não desiste, porque é uma mulher incrível!

Como a vó Hortência, que já anda com certa dificuldade e acabou ficando responsável pelos quatro filhos de sua filha, porque esta não consegue se amar e se abandonou,  deixando para a mãe três meninas e um menino Down, que precisam comer, brincar, estudar e para tudo ela dá um jeito, mas não consegue levá-los até a escola sozinha. Paga seus impostos, mas não recebe do Estado, incompetente,  o transporte que seus netos precisam. Ano após ano ela está lá, às vezes chega muito mal humorada com as crianças gritando ao seu redor, trato-a com carinho, porque é uma mulher incrível e não desiste!

Como Tulipa, que recebeu uma ligação da Assistente Social e aquele sonho cheio de expectativas, em um segundo passou a ser realidade. Em meio a choro e um montão de dúvidas ela vai ser mãe,  porque o amor que está lá dentro é imenso o suficiente para cuidar da vida da criança, que foi gerada por outra mulher e que por diferentes motivos não deu conta. No “universo de variantes” da maternidade, ela encara e não desiste, porque é uma mulher incrível!

Margarida, Hortência, Violeta e Tulipa não serão notícia de revista e jornal e não se tornarão celebridades,  mas estão no nosso dia a dia e, apesar de crescerem ouvindo da sociedade machista que são frágeis e precisam de um homem, na prática a história é bem outra, são pura  luta e resistência e merecem nossos aplausos, porque são mulheres incríveis!

 

Kátia Helena Gazzola Machado

Oficial Escrevente – JIJ Passo Fundo.